Querida Ana,
a gente sabe que é difícil, mas no fim passa. o que eu queria te dizer nessa noite de começo de julho é que sinto que meu capítulo também está virando. mas eu tenho medo de errar, você me entende? não sei ver até onde dá pé mais. e, por isso, fica fundo.
ando te acompanhando, Ana, você parece tão feliz. isso me deixa feliz também. guardo meu carinho por você desde a última carta que me escreveu dizendo que estava saindo do poço sem nome, que o trem não te levava mais as pernas. não me sinto mais triste nem sufocando quando me lembro de você. também não consegui esperar para seguir minha vida, e sigo sigo sigo sigo sigo da forma que tem dado certo, até que não dê mais. a última vez que a gente se encontrou a gente fez um piquenique, você ainda se lembra? do sol, do pão de queijo, de como você pensava nas coisas, de como era bom andar pelas ruas do seu lado. hoje eu voltei pra casa ouvindo uma música que gostaria de ter te mostrado. fica pra próxima. não vai ter próxima. não com você. sei que tem se cuidado. te vejo tão bem, tão feliz, não precisa de mim! que grande alívio. sabe que eu teria aceitado ser o verme da sua barriga, se você deixasse. ainda bem que você não deixou. tenho encontrado asilo na ficção. escuta. o amor é pros corajosos. fui destemida com você. destemida ao ponto de ser o verme que torce de longe. por mais que você tenha sido bem filha da puta naquele dia que eu tentei te ligar e você se fez de desentendida, deus. e todas as coisas que sempre vão me lembrar você. ontem li um texto que falava que a gente não é ensinado a fazer finais. que achamos que o fim do amor é o começo do odio. que ingenuidade. o amor é irmão do odio. Sufriríamos menos si aprendiésemos desde la infancia que todo cambia permanentemente, que nosotras también cambiamos, que las plantas florecen y se marchitan en un eterno proceso de vida y muerte, que en la vida unas puertas se cierran y otras se abren, y que lo mejor es afrontar los cambios con curiosidad, con valentía, y alegría.
O amor não dura pra sempre, nossos duelos tão pouco. Acho que quanto mais velho a gente fica, mais as nossas buscas pelo amor se tornam desesperadas, queremos reviver aquilo que provamos um dia. lá na infância, com nossa mãe.pelo menos me sinto assim.
Torço por você. O amor acabou. Mas também não tem ódio, Ana. Não sei o que tem aqui no poço em que estou, mas lembrei de você hoje voltando pra casa. Sabe, Tenho curiosidade, valentia, e alegria. O que será que eu to fazendo de errado? Sei que não vai me responder. Mas foi bom falar com você hoje. Obrigada por ser a lembrança de que o amor ja existiu em mim algum dia, Ana. Não vou perder tudo não. O capítulo já está virando, viu?
Se cuida.
Com carinho,
Maria
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