II

(pela manhã. depois do banho. sentados à mesa)

- Já tenho 34 anos.

- Hoje eu sonhei com o mar.

- Não sei mais o que fazer com a minha vida.

- Sonhei com o mar, Valentina.

- Sabe? Quanto mais tempo passa, mais eu vejo que as pessoas ficam perdidas.

- Sonhei forte com o mar...

- E o que é que tem?

- Tinha uma casa grande, era uma casa de madeira com muita gente e eu. E, em um dos muitos quartos, porque sempre há muitos desses e eu já te falei que existem na minha cabeça esses cômodos infinitos, eu abria a janela, sabe? E, dali, via um pedaço do mar.

-Você não acha que parece todo mundo meio perdido mesmo?

(pausa. os olhos marejados. a vontade. o trovão)

- Acho, muito. Aí, o mar era cercado, como se fosse meu quintal, o quintal aqui de casa, só que com mar, e céu, céu grande, Valentina. E eu esperava ansiosamente...

- Por que você está chorando? 

- ....pelas tardinhas, quando o céu é rosa e formavam-se quatro raias, no mar, eu sei, eu via e as espumas de sal tinham tonalidades diferentes de rosa, como se fossem o meu paraíso pessoal.

- E aí,

- Acho que o céu é o mar. Acho mesmo.

- E?

- E aí nada, Valentina, mas tudo. Eu nadava essas horas, no meu céu, tinha gosto cheiro som e textura de céu, mas era mar, compreende? Não, espera, não levanta, sei que está com pressa pra ir trabalhar, e eu te acho muito perdida sim, mas deixa eu te contar, porque se não esqueço. Eu nadava, nadava com medo, mas aquele medo bom, mergulhava, sozinho, imagina que sensacional, e cada cor era uma sensação diferente, textutas de pelo de gato, um cheiro gigante de perfume de gente que a gente gosta, se eu provasse a água-céu teria gosto de amor, e, se olhar pra cima, aquela coisa bonita, aquilo que refletia nas espumas delicadas, as cores, tudo meio fim-de-tarde do Titanic, coisa que demora aparecer, mas que vem todo dia? E não afundava forte, eu nadava e rodava em mim mesmo, nadava praticamente em uma dança quando mergulhava de mansinho e me sentia a pessoa mais sortuda que já existiu, por ter provado algo tão especial, único, deslumbrante. Sabia que a gente só pode mergulhar sozinho? Eu era sozinho no mar, mas era eu e o mar, é confuso, estar sozinho é se sentir sozinho? No mar, companhia do mar, fora do mar, companhia do céu, mas tudo é beleza estética, e textura, e eu tô perdido também, mas no mar eu me encontrei. Acho que vou sofrer muito, até o resto dos meus dias, por não ter um mar assim nesse mundo. Deslumbrante. A espuma, por Deus, não me canso de lembrar, imaginar. Viver sem esse mar é tarefa dura. Ainda bem que ele existe nos meus sonhos. Pra eu ver quando quiser. Quando tiver vida dura. Quando tiver vida mole. Me sentir lá. Ou fazer desse céu um escape mais gentil. Mais gentil. 




Comentários

Postagens mais visitadas