I



(silêncio)

- Foi bem ali, né?

- Bem ali o quê?

- O incêndio. Aquela vez.


(silêncio)

- E como é que tu sabe?

- Ah, algumas coisas a gente escuta por aí.

- O sol já foi embora.

- Tá chegando lá no Japão, então.

- Deve ser. Daí, fica tudo cinza.


(silêncio)

- Cê tem um cigarro?

- Tenho nada. Tava sem grana.

- Tô parando aos poucos, mas queria segurar alguma coisa nas mãos agora.

- Você tem uma coisa nas mãos agora.

- O quê?

- Eu.


(silêncio)

- E muita gente machucou?

- Um bocado, muita coisa se perdeu.

- Nem consigo imaginar.

- Os bombeiros não vieram, queimou tudo até o fim.

- Tem esse filme, Portrait d'une jeune fille en feu, o fogo era assim?

- Quase.



 Quando vens e me tomas de mim nesse caos infinito não sou ninguém sou tudo e dói nunca serei nada conte-me da estrada sempre perdida e sempre perdida e sempre.  


(silêncio)

- É que se bobear, tudo vira filme. 

- A gente devia almoçar junto amanhã.

- E falar de amor?

- E falar de qualquer outra coisa, e falar de amor.


(silêncio)

- Tem alguém, nesse momento, acordando lá no Japão e vendo o sol chegar.

- Deve ter doído muito.

- O tempo cuida.

- Cuida nada.

- Escuta, acho que não acabou não.

- É preciso recomeçar de alguma forma.

- ...

- Das cinzas, renascer de novo?

- Cinzas são como seda pros dragões.


(silêncio)

- É quente, muito quente.

- O quê?

- Sua mão.

- Eu gostaria de queimar enquanto amanhece no Japão.

- Você nunca esteve mesmo aqui, né?

- E talvez virar cinza também.

- Ninguém vai acreditar em mim.

-  Até o fim?

- Até o fim.


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