em algum lugar hoje à noite
o canto mais alto dos pássaros
é pela manhã que vem antes do carro dos homens
são muitos timbres, é tão mágico, como se cada canto fosse uma pincelada de um quadro impressionista que explode em cor e textura, não consigo descrever a sensação de ser acordada por uma música tão delicada, bem na minha janela, bem na minha rua, bem no meu sol ralo que entra pela cortina e que traz consigo o calor mais gostoso do dia. Logo depois vem o moço que trabalha em frente, limpando, ele sempre conversa com alguém. Há vento e cheiro de começo, o frescor da manhã. As pessoas passam pela rua e consigo ouvir as primeiras conversas, distinguir vozes, tudo isso antes dos carros. Depois fica mais difícil, me perco. É fácil amar o começo do dia e as noites, é só continuar atento. Dessas últimas, sei que o céu azul escuro é o mais bonito. A imensidão de olhar o profundo da noite pela janela, quase sinto como se pudesse mergulhar no que praticamente me abraça. É macio. Quase como se eu pudesse sair voando, ir até o começo de tudo, até o fim de tudo, é a mesma porta, atrás e frente é questão de perspectiva. Há duas estrelas e, mesmo que daqui não consiga a ver a lua, eu saio para uma volta no quarteirão e logo ali está ela, a beleza escondida que você procura. E somos. Somos eu e a música dos pássaros. Eu e o profundo azul. Eu e os prédios. Eu e as primeiras conversas. Eu e o hálito do vento que entra manso. Eu e as cigarras que cantam tímidas. Não há solidão se há céu, se há música, se há a voz dos outros, se há vida. E não há melhor companhia do que a invenção da vida.
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