capítulo 1

Era domingo de feira e fazia sol e chuva no mercado da cidade, em uma festa de vozes e cheiro de pessoas, frutas: de tudo o que tem polpa e escorre. Com certeza não era quarta-feira, e as barracas erguidas desde muito cedo criavam a ilusão de que ali estavam todas as pessoas do mundo, e, entre tendas vermelhas e listradas, a despeito da multidão, era preciso dar razão ao par de olhos do homem-que-procura. Ele tirou um grampo da carteira, contou os tostões como quem conta estrelas em céu nublado, deu mais uma olhada em volta e parou mesmo foi na barraca mais colorida, dizem que cor dá sorte, e ele carregava mil amuletos no peito.

- Bom dia, um de carne, por favor. - pediu gentilmente.

Ao senhor de cansados olhos do outro lado da lona, cabe dizer que este não procurava mais nada - achara em uma noite de verão de 1987 e, desde então, vivia satisfeito na terra dos que nascem com a sorte de encontrar. Ou o azar. Pois, nosso homem-que-ainda-procura continuava a olhar ao redor e em cada face desconhecida, em cada olhar apertado de cada mulher que passava ali, procurava ela. Domingo era o dia mais colorido pro amor, porque é o mais vazio. Nosso homem leu histórias de amor o suficiente pra se sentir a pessoa mais sortuda do mundo aos domingos, é quando fica escancarado, dizem que ela sai pra passear, quem sabe não se encontrariam em um banco de praça qualquer, em qualquer esquina, viaduto, que seja. Encontrariam e bastava. A partir dali, não procuraria mais nada. Perambulou a feira inteira, capengando, e não desistia do olhar atento a cada uma que por ele passava, olhava firme nos olhos, esperava alguém retribuir e ali ele sentir que era a certa. Precisava dizer mais nada. Pusessem um microfone na cabeça de cada um ecoaria a torto e à direita, em uníssono, um grande e estrondoso: achei.

Era segunda-feira de copas e nada mais importava além da rotina que voltaria mais uma vez a acertar a cabeça do homem que ainda sonha. E sonha forte, contou-me uma vez, bem baixinho como quem cochicha o maior segredo do mundo, que de todo domingo pra segunda sonhava com ela. Que tinha certeza de que, finalmente, ela ia aparecer. E no trabalho, esperava. Alguém que quisesse gritar um "achei" bem grande. No almoço, esperava. Em casa, esperava. No celular, esperava. No caminho pra padaria, esperava, dizia ser nos lugares mais improváveis e quando estivesse mais distraído que iriam aparecer os tais olhos malditos que tanto procurava. E nada.

Era terça-feira de reis e já não bastasse o restante do mês nosso homem procurava desde a seis. Acordara mais cedo, diz que vai tentar coisa nova hoje, vai na padaria mais de longe pra ver se não é lá que a bendita se esconde. Mal sabe ele que ela acorda só depois das 9. Que ela não frequenta becos debaixo de pedras cinzas e nem que sai de casa às terças-feiras. Conclui-se que terça é o maior dia de azar pra quem procura. A maldição é saber que as informações mais importantes são escondidas tanto quanto a pedra. Que importa se ela perambula por aí ou não, o homem-que-procura continuará a gastar sua sanidade andando atento e forte pelas ruas toda terça de reis. 

Era quarta-feira e não de cinzas. Nosso personagem é incansável, não desiste e não ousa esperar o final de semana, continua incessantemente sua procura. Levanta, escova os dentes, arruma o cabelo, veste-se para o trabalho, tem olhar atento a todas as pessoas que cruzam a rua, a avenida, a felicidade, a vida, que atravessam minimamente, que falam, que ouvem. E espera. Aguarda. Nosso homem é paciente. A vida resolveu ser um pouco mais gentil e, como quarta é o dia de procurar no parque, ele esbarrou sem querer em Suzana. Suzana era doce. Atravessava. Conversaram uma boa por mais de 20 minutos, enquanto nosso pobre homem se entusiasmava cada vez mais a cada segundo, gritando enfim, 
- Achei, te achei, finalmente te achei.
Mas o tiro foi de raspão. A vida goza dos homens que procuram. Gentileza demais sobra, é preciso criar bem, testar o amor pra ver se dá pé. Ela vê diversão imensa em testar a vontade de achar, move-os da cama todos os dias para que procurem e só parem no dia que a outra de capuz preto os tirar do palco da vida.  Não era Suzana. Não era Elisa, Marcela, Rosa. Não era Pedro, nem João. E em muitas quartas-feiras, ele tentou ver onde dava pé. Insistia. 


Quando achar, vai ser tão fácil quanto não procurar. 





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