Umas terças, uns agostos
"And there's another world
There's a better world
There must be
Well there must be
Well there must be
Well there must be
There must be"
- Olha, antes de você partir tenho uma porção de coisas pra te dizer. É, é, talvez coisas e um bando de frases clichês que eu solto ocasionalmente, "só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais.", "só se vê bem com o coração. Nem um orgão a mais." e blá blá blá meus sentimentalismos, devo dizer que também acho um pouco arrogante da minha parte afirmações assim, em um universo imprevisível, probabilístico, que marcha em direção ao caos. Quem sabe amanhã o sol não venha, as palavras venham antes dos sentimentos ou os vasos se extrapolem e se afoguem junto com o meu rim esquerdo, que começou a enxergar mais que o coração. E eu tenho a chance de estar completamente errado no mês que vem. E falando de mês, você acredita, foi em agosto, talvez, que eu percebi que gostava de você mais do que eu deveria. É, sabe, é díficil e eu já te disse, mas é difícil deixar as coisas crescerem em mim. Existem muitas coisas que a gente pensa e fica calado, né, dessas coisas que a gente não sabe como serão ditas nem como serão ouvidas, e eu sinto que tem muitas dessas dentro de mim, sabe? A gente tem um medo de entrar naquele mais fundo, naquela dimensão que não sabe se terá coragem de viver, você está acompanhando meu raciocínio? O não-lugar que as pessoas vão depois de sintonizarem tão bem umas com as outras, o lugar íntimo de se conhecer, do seu mais fundo e do mais fundo de mim e do fundo de outras pessoas que passaram aqui na rua de baixo hoje. Rua essa, inclusive, não sei se te contei, que gritei várias vezes seu nome esperando que me ouça do outro lado da cidade, e eu sei que você me ouve, sabe? Quando eu não falo, lá do meu não-lugar, você ouve e isso é desesperadoramente assustador pra mim, você me entende? Sei que entende. Eu gosto de perceber as coisas atrás dos corpos nus entrelaçados, das risadas juntas, das mãos dadas, e mesmo atrás daquele silêncios contemplativos, e tenho sentido que posso encontrar isso com você. Companheirismo, cê me disse um dia, companheirismo e eu ri e achei bonito, não sei se você percebeu, te achei bonito ali comigo, colocando em palavras o que tava aqui dentro e eu não sabia. E deixa eu te dizer, antes que meu ônibus parta, que você cresceu em mim de uma forma insuspeitada, morna, devagar, mas inesperada, foi crescendo mais que uma roseira, samambaia, e quero dizer que eu vou tentar te deixar crescer até o ponto em que tenha que tirar meus telhados e abrir as janelas, eu gosto de quando arrebenta, lateja, tira o ar, cresce sem pedir permissão. E é o que te peço. Se você quiser crescer em mim, fique à vontade. Gosto de imprevistos. Palavras. Gosto de risadas. De gola rolet e de filme francês chato. De você. De pasta de alho. De astrofísica. De música que nínguem conhece. De festival. De adrenalina. De sinergia. É, era essa a palavra que você usou: sinergia. Antes de partir, quero te dizer um milhão de coisas. Será que vai dar tempo?
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