sobre beber mercúrio
"Te lembra aquela vez que mostrei
os albúns que ainda quero conhecer a fundo?
Te lembra aquela vez que falei
do fundo do meu peito
que gostei demais de tu?
Te lembra quando eu demonstrei
que tudo o que tu quer tu pode ser
E que eu queria mais tempo
queria mais tempo."
Há pouco menos de 2 anos, um menino estranho me pediu um beijo na calçada da porta de um lugar bonito. A calçada era feia. O beijo foi pésismo e eu aceitei porque se eu dissesse "não" teria que aguentar esse menino estranho por mais mais ou menos 2 horas com um climão. Mas eu beijei. A noite acabou e eu jurava que nunca mais ia trombar ele na vida. Um mês depois ele me disse que me amava, no meu aniversário. nos beijamos bastante desde então e, no segundo encontro, acho que ele aprendeu subitamente a beijar, ou só demos um jeito de encaixar, ou ele fez curso com algum coaching (nunca vou saber). Já foi muito escrito sobre o fim, e pouco se sabe do começo. Tenho memória de peixe, Rold, você acredita que eu não me lembrava de que você estava febril aquele dia do fim depois do dia de andar no frio da madrugada até a praça do banco sem nome? Só deus sabe como eu aguentaria todo aquele frio por tantas noite se fosse pra andar do seu lado. Depois desse dia, minhas memórias se ligam ao fato de você me deixar ir sozinha encarar um futuro que eu nunca quis. Sou rancorosa. Você é diferente. Um menino estranho apareceu na minha vida. Seu sorriso me desmontava. Todas as vezes que eu te olhava sentada por cima sua pele na minha eu me desmontava por você. Eu era tola, boba, sensível, otária, apaixonada. Ainda sou boa parte disso. Anteontem, inclusive, o tema principal da minha sessão de terapia foi o quanto eu sou sensível e deixo o mundo me afetar mais do que devia. Você me afetou nível suficiente pra eu sufocar toda vez que lembro de você. Sua mensagem essa manhã quebrou minhas pernas como há muito eu não sentia.
Vou descrever: dentro do meu peito começa a inflar inflar inflar inflar inflar inflar inflar e sobe até a garganta depois ao nariz e eu travo o olho enche de água.
Ultimamente, eu só engulo.
E te digo mais: crescer é um inferno. Já disse isso. Deixa eu tentar explicar. Eu estava ali naquela etapa da vida em que eu tinha acabado de sair do ensino médio e não sabia pra onde caminhar, torta, trêmula, 17 anos. Você ali acabando de começar a faculdade mudar de cidade. Rold, a gente tava numa fase muito sintonizada. Você sabe que você era meu refúgio, meu sonho bom, meu sonho estranho e bom. Te ver era a melhor parte do meu mês. Te deixar era a pior. Me agarrei. Não foi certo e você percebeu antes de mim e foi. Foi pro poço sem nome, dessa vez diferente do meu, e engatinhamos no escuro em poços diferentes. Pensar em como poderia ter sido, imagina, se tivesse dado certo. Hoje? Seu emprego, sua faculdade, sua gatinha linda. Minha faculdade, meus rolos, meus hobbys, meu ludovic. Uma vez por semana penso em jogar tudo pro alto pra morar no mato. Tô cansada, e não parei de fumar, mesmo que não divida mais cigarros de palha com você na porta de lugares desconfiosos que tocavam música boa em um tempo que não era o fim do mundo (sempre penso em como ainda vou te encontrar nessa situação, muito em breve, e vamos dizer um oi estranho, mas vamos dar um jeito, sei que vamos).
Troquei de celular e perdi a playlist bonita em forma de disco que vc me fez. Ouvi ela várias vezes enquanto arrumava mais uma coisa pra fazer na minha vida. Se ainda tiver ela, me manda. Uma das últimas músicas que você me mandou, no tempo próximo após o momento em que ainda colocávamos música na nossa playlist, foi sobre perder sua Maria, que era sua alegria e que, infelizmente, morreu no terceiro dia de folia. Morro todo dia e revivo em alguns. Acho engraçado aquela playlist ser o coração do nosso relacionamento, e acho bonito a música estar tão presente no que fomos. É uma parte da minha vida que sempre associarei a você. Quando fui ver Alex G, por mais que estivesse em companhias maravilhosas, faltou alguém pra ouvir aquilo tudo comigo. Vai ser assim pra sempre? Dizem que o primeiro amor é pra sempre. Não fui sua primeira, mas cê foi o meu.
Me destruiu e me construiu. O jeito como você mudou comigo ali no fim de tudo, Rold. Eu gostava tanto de você, você não faz ideia. Não consigo florear poeticamente o quanto eu gostava de você. Como você diz pra eu te encontrar? Não sei se consigo. Já fui até você antes e me quebrei. Talvez seja bom tentar um lugar diferente, você não acha? Me diz, que dessa vez sou eu quem vai pedir o beijo no meio-fio.
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