24/12/2020.2
Agora é sobre um parque de diversões. Um no meio de uma floresta das árvores coloridas. O parque é imenso e ele te engole, você quer todos os brinquedos brilhantes, mas a montanha-russa é a montanha-russa. A montanha corta o parque que fica no meio da floresta bonita e ninguém sabe o porquê de ela ser russa. O que tenho a te dizer é que ela é tentadora. E, dentre todos os brinquedos brilhantes, ela te convida docemente para um passeio de algumas horas. O problema? uma vez lá dentro, não há grito que se faça ouvido. A vista do chão para o alto faz parecer um passeio convidativo. Você sobe as escadas alto alto alto e, uma vez com o papelzinho quadrado do ingresso debaixo da língua, espera pacientemente sua vez na fila, até que ela chega e a portinha se abre. Assim, descobre subitamente que o único lugar vago é na poltrona da frente e ninguém sentará ao seu lado, apesar de ter mais pessoas nos bancos de trás. Com medo, mas sem poder voltar, encara o veludo vermelho do seu banco que subitamente ficou bom-demais-ao-toque e bom-demais-às-vistas e sua mão o toca depois seu cotovelo depois a lateral do seu quadril e quando vê já se sentou. As travas são colocadas, ainda bem, não vai voar lá de cima. Não de verdade. A sensação é a que conta. E há medo, muito medo, porque você nunca esteve em uma coisa russa tão alta tão tortuosa tão gostosa ao toque e às vistas e ao longe se ouve a música do parque mas agora não importa muito a música é longe tudo está perto longe perto longe e seu carrinho bem na frente começa a deslizar pelos trilhos devagaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar mas dá medo porque bem à frente tem uma decida íngrime. E faz frio faz calor e depois frio o vento te acerta e não é possível voltar atrás mas você gosta. O controle nunca foi seu. Não foi você quem construiu os trilhos. As linhas se fazem tortuosas e retas e a velocidade alterna as luzes mudam a música volta a música vai você grita mas a sua boca mal se abriu o gosto é insaciável quer mais quer ir fundo quer mais rápido e dança. E dança. Em alta velocidade, lá em cima, você dança. Sente em cada mísero osso o quanto o mundo é grande e sente o Todo, o Todo mesmo aquilo tudo que você nunca conseguiu explicar mas tá lá ardendo pulsando em cada artéria em cada veia em cada dedo em cada passo em cada trilho cada vez mais alto cada vez mais fundo cada vez mais engraçado e cada vez mais tolo e vai se sentir mau uma hora mas passa sempre passa. E quando passar a barriga vai doer de rir e o poema do poeta triste ficará subitamente muito tocante. Vai se lembrar do que talvez nunca lembrou. E vai ver o céu se mover, bem mais alto que sua poltrona e bem azul. E vai cantar também, que cantar espanta coisa ruim. Depois da longa jornada, vai sair bambo, vai passar dias se perguntando. Até se sentir pronto pra mais uma volta.
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