24/12/2020

 Enfim, natal. Te escrevo. Creio ter se tornado minha sina te escrever de 7 em 7 dias, tal qual uma maldição. Meus músculos do pescoço estão tensionados e aparentemente preciso de uma massagem. Estou sentada na varanda ao lado da minha avó e a noite é nós duas, os dias sempre são nós duas. E é. Acendemos dois incensos e a ouvi falar do nascimento de cristo, sobre como todos os animais presenciaram esse evento há muitos muitos muitos muitos anos atrás. Eu ouvi atentamente e olhei pra ela fumando um cigarro bem ao meu lado, de roupão e pijama, no frio que faz aqui todas as noites. Distraída. Não seria nada sem você, vovó. Natal me deixa emotiva porque me lembra que não tenho família, e aí eu lembro que tenho minha avó. Ah, também comi maionese. Te escrevo hoje mas amanhã provavelmente não estarei aqui, só ano que vem. Te conto também que hoje eu chorei bastante e aquele sentimento de 2018 voltou com força me senti bamba me senti fraca me senti tola me senti pequena (e sou isso tudo). Me falaram pra seguir minha intuição depois me falaram pra aceitar o agora e transformar depois de aceitar me falaram pra não me importar (eu nunca sei o que diz minha intuição). Onde fica a intuição? É na cabeça? É na ponta do pé? Dói tudo. Não sei como te ouvir. É atrás da orelha? Ela grita ou sussurra? Qual parte é minha intuição e qual é minha racionalidade que bebe das minhas experiências e me faz ter medo de arriscar qualquer coisa que seja qualquer coisa que seja qualquer coisa que seja qualquer coisa que seja e pular e pular e pular mas não tem prédio grande o suficiente nessa cidade que faça a queda valer a pena. Não tem prédio alto o suficiente que faça valer a pena. Sinto que terei de partir para longe. Procurar a queda mais dolorida e mais emocionante. 

feliz natal

com carinho,


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